Compliance para pequenas empresas: por onde começar

Sem departamento, sem consultoria de seis dígitos e sem juridiquês: os quatro blocos de um programa de integridade que cabe numa PME.

corpvox.com.br/blog Corpvox

“Compliance” pode ser a palavra mais intimidadora do vocabulário corporativo brasileiro. Ela evoca departamentos com dezenas de advogados, consultorias de seis dígitos e manuais que ninguém lê. O resultado é que o dono da empresa de 60 funcionários conclui que isso não é para ele, e não faz nada. Este artigo existe para desfazer essa conclusão, porque a versão que a PME precisa cabe em quatro blocos e num orçamento de PME.

Antes dos blocos, uma tradução que desarma o tema. Compliance é só o nome pomposo para três compromissos: a empresa diz quais são as regras, cria um jeito de saber quando são violadas, e age quando fica sabendo. Qualquer negócio sério já quer fazer isso, e o programa apenas organiza.

Por que a PME está sendo cobrada agora

Três ventos empurram, e nenhum é teórico. O primeiro é legal. Empresa com CIPA já tem obrigações da Lei 14.457 (código de conduta, canal com anonimato, treinamentos), como mostra o guia da obrigatoriedade. O segundo é comercial, e costuma chegar primeiro. O cliente grande manda o questionário de homologação perguntando por programa de integridade, e a resposta define o contrato. O terceiro é o incentivo da Lei Anticorrupção, que manda considerar na dosagem das sanções:

“a existência de mecanismos e procedimentos internos de integridade, auditoria e incentivo à denúncia de irregularidades e a aplicação efetiva de códigos de ética e de conduta no âmbito da pessoa jurídica” (Lei 12.846/2013, art. 7º, VIII)

Em bom português, quem mantém programa de verdade paga menos se algo der errado, com peso extra para quem fornece ao setor público.

Repare no padrão dos três: ninguém pergunta se a sua empresa tem departamento; perguntam se ela tem programa. Programa é conjunto de práticas, e prática cabe em empresa de qualquer tamanho.

Bloco 1: o código de conduta (as regras escritas)

O ponto de partida, porque tudo o mais se refere a ele. Não precisa de 40 páginas. Precisa de clareza sobre o que a empresa não tolera (assédio, discriminação, fraude, conflito de interesse, por exemplo) e do que acontece com quem viola. Linguagem de gente, exemplos concretos do seu setor, e a assinatura de ciência de todos, guardada. Duas armadilhas a evitar. Copiar o código de uma multinacional (vira peça de ficção) e escrever regras que a própria diretoria não pretende seguir (vira piada interna, e piada interna vaza).

Bloco 2: o canal de denúncias (o jeito de ficar sabendo)

O código diz as regras; o canal de denúncias conta quando foram quebradas. É a peça mais técnica dos quatro blocos, porque exige o que improviso não entrega, anonimato garantido e registro íntegro, e por isso é a única que normalmente se contrata pronta. A boa notícia é de mercado. Para PMEs, isso custa poucas centenas de reais por mês, não um projeto.

Aqui vale um aviso de sequência, porque a ordem erra fácil. Canal sem código funciona (relatos não esperam regulamento), mas código sem canal é letra morta com assinatura. As regras existem e a empresa segue sem saber quando são violadas. Se o orçamento forçar escolha de fase, a dupla código + canal vem junto na fase um.

Bloco 3: o treinamento anual (as regras vivas)

Uma vez por ano, todo mundo revisita as regras. O que é assédio, como usar o canal, o que acontece com quem retalia. Para empresas com CIPA é exigência com prazo. Para as demais, é o que mantém o programa respirando. Formato de PME: uma hora bem preparada, casos do cotidiano do setor, liderança presente na sala (a presença dela é metade da mensagem), e lista de presença arquivada, porque programa que não registra não demonstra.

Bloco 4: o responsável e a rotina (alguém segura o leme)

Sem dono, os três blocos anteriores viram evento de inauguração. O responsável de compliance da PME não é cargo novo; é papel somado a alguém com respeito interno e acesso à diretoria, como o RH, o financeiro ou um sócio. A rotina que sustenta o papel é conduzir os casos do canal com prazo (o desenho de papéis já está mapeado), rodar o treinamento anual, revisar o código quando a empresa mudar, e reportar à diretoria duas vezes por ano. Meio dia por mês em tempos de paz. Nos outros tempos, é a pessoa que evita que vire tempestade.

O teste do questionário do cliente

Como boa parte das PMEs chega ao tema pelo questionário de homologação de um cliente grande, vale mostrar como os quatro blocos respondem às perguntas que de fato caem nesses formulários.

Pergunta típica do questionárioBloco que responde
”Possui código de ética/conduta divulgado?”Bloco 1
”Possui canal de denúncias acessível a colaboradores e terceiros?”Bloco 2
”O canal garante anonimato e proteção contra retaliação?”Bloco 2
”Realiza treinamentos periódicos sobre o tema?”Bloco 3
”Há responsável formal pelo programa de integridade?”Bloco 4
”Como são tratadas e registradas as denúncias recebidas?”Blocos 2 e 4

Duas observações de quem já viu esses formulários circularem. Primeiro, eles quase nunca perguntam o tamanho do programa, e sim a existência e o funcionamento, o que confirma a tese do artigo. Segundo, a pergunta sobre registro das denúncias costuma ser a que derruba quem improvisou, porque exige descrever um fluxo, e fluxo de planilha não sobrevive a uma descrição honesta.

O roteiro de 90 dias

  • Mês 1: escrever o código com a diretoria, nomear o responsável.
  • Mês 2: colocar o canal no ar e colher as assinaturas de ciência do código.
  • Mês 3: lançar canal e código juntos, com fala da liderança, e agendar o primeiro treinamento.

No dia 91, a sua empresa responde “sim” ao questionário do cliente grande, cumpre o núcleo da Lei 14.457 e, mais importante, fica sabendo dos problemas enquanto são pequenos.

Como o Corpvox resolve isso

Dos quatro blocos, o Corpvox entrega pronto o mais técnico, o canal com anonimato de verdade, protocolo, apuração registrada e relatório de auditoria por caso, na medida e no custo de PME. E ajuda nos vizinhos, com materiais de divulgação para o lançamento e orientação prática para o responsável que está estreando no papel. Compliance na pequena empresa não é departamento, é decisão. Se a sua está tomada, fale com a gente que a parte técnica sai desta semana.

A conta final: decisão, não departamento

Fechando a conta do começo. O compliance que intimidava era o das multinacionais. O seu cabe em quatro blocos, noventa dias e um orçamento de PME. Código que diz as regras, canal que conta quando foram quebradas, treinamento que mantém tudo vivo e alguém segurando o leme. É menos do que o mercado de consultoria vende, e é exatamente o que a lei, os clientes e a sua própria operação pedem.

Transparência editorial: lembre-se que faço parte da equipe do Corpvox. Desconte o viés que achar necessário e fique com os argumentos.

Perguntas frequentes

Pequena empresa precisa de programa de compliance?

Precisa de um programa proporcional ao tamanho: código de conduta, canal de denúncias, treinamento anual e um responsável nomeado. Isso cobre as exigências que chegam por lei, por contrato e por certificação, sem estrutura dedicada.

Quanto custa montar compliance numa PME?

Muito menos do que o mercado de consultoria sugere. Os quatro blocos básicos se montam com ferramentas acessíveis e tempo de gestão. O canal de denúncias, peça mais técnica, custa poucas centenas de reais mensais.

Quem deve ser o responsável pelo compliance na empresa pequena?

Alguém com acesso à diretoria e respeito interno: em geral o RH, o financeiro ou um sócio. Não precisa de dedicação integral; precisa de papel definido e autonomia para tratar casos sem pedir licença ao envolvido.

Por onde começar se não der para fazer tudo de uma vez?

Pela dupla que sustenta o resto: código de conduta (as regras escritas) e canal de denúncias (o meio de saber quando as regras são violadas). Treinamento e monitoramento entram na sequência.

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